quarta-feira, 13 de março de 2013

Verdades escondidas nas palavras que ficaram por dizer.


Os recursos gastaram-se, as portas fecharam-se, as tentativas falharam. No meio apenas a guarda levantada estudando as escassas estratégias que lhe restam. Pouco mais há a testar. Guardado permanece apenas a sua maior defesa, o seu melhor esconderijo, a mais poderosa das suas armas. Eternamente guardado, naturalmente espontâneo, assim é o dom de sentir a dimensão que transcende os limites da racionalidade, que ultrapassa as leis da lucidez, e que, sem muita exigência carrega o peso que acarta sobre os ombros. O dom de refúgio, de protecção  de liberdade, da sua vontade exuberante de escrita. E a verdade é que a sua melhor arma é também a sua melhor defesa, a mais pura das suas verdades, o mais fiel dos seus testemunhos. Ah, fracos daqueles que sempre lhe olhando nos olhos não vêm sua ambição, o seu desejo de alcançar o maior. Francos daqueles que sempre a vendo acordar não acompanharam a sua mudança, o seu engrandecimento, o seu “passar para além de”, de querer mais, de fazer diferente! Fracos daqueles que sempre limitando continuam presos às tácticas do passado, acreditando (enganados) que a experiência lhe dá o avanço necessário param manterem a dianteira em segurança. Mas o jogo mudou, e improviso após improviso todos os recursos se esgotaram restando, agora, apenas o teatro de palavras em que os argumentos e as verdades deixaram de fazer parte do elenco principal. O orgulho assumiu o controlo e os sentimentos ficaram esquecidos na caixinha de acessórios, guardada no alçapão, juntamente com a racionalidade e a lucidez. No seu bolso resta apenas aquele trunfo que guarda, bem em seguro, para que não lho tirem também. Não é segredo, mas só os verdadeiros sabem da sua existência. É a sua chave, saber da sua existência é perceber a sua verdadeira visão do mundo. Mal saberia que este seu trunfo teria de ser um dia usado para gritar a voz que nunca conseguiu falar, que todos os seus minutos de inspiração seriam expostos às luzes das ribaltas, tudo em prol de uma última tentativa de retomar o caminho certo, que há muito foi abandonado. Sabe que não é possível, mas que fique a certeza que deu tudo de si, que fique a certeza que a sua consciência permanece tranquila e a sua alma orgulhosa de tudo aquilo que é. Sem reticências, sem senão, assim se vive uma vida em que o maior apoio se tornou a maior fraqueza e onde o olhar é a janela para o coração.
E mesmo que um dia nada mais haja a fazer ou dizer que fique a certeza que demos o melhor, que fomos o melhor e que vimos o melhor deste mundo onde dia após dia remendamos o nosso quotidiano na luta pela voz da singularidade contra a vida de marioneta. E se a coragem faltar, se algo ficar por fazer, tudo isto será mais uma das verdades escondidas nas palavras que ficaram por dizer.


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